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domingo, 8 de agosto de 2010

O jOgO


5 O jogo
- Poliana! – exclamou Nancy, ao chegar. – Você nos deu um susto!
- Desculpe, Nancy. Não precisa se preocupar. Papai e os amigos também ficavam desesperados, até que se habituaram. Descobriram que nunca me acontece nada.
- Não vi você sair – disse Nancy, ajudando-a descer. – Nem eu, nem ninguém. Será que veio voando do sótão até aqui? Sou capaz de apostar...
- Isso mesmo, Nancy... eu voei. Da janela para a árvore.
- Como? De que maneira?. – perguntou Nancy, sem compreender.
- Pela árvore, ora. Aquela que cresce junto à janela.
- Não é possível. Só queria ver a cara da patroa, se ouvisse o que você está dizendo.
- Pois eu vou contar a ela, logo que no encontrarmos – respondeu Poliana com um sorriso
- Pelo amor de Deus, não fala isso! – Nancy parecia apavorada.
- Será que ela vai responder como da outra vez, quando falei de papai?
- Não sei... mas não diga nada. E por mim pouco importa o que ela dirá – disse Nancy, atrapalhada mas decidida a impedir que Poliana fosse de novo repreendida. – Depressa, menina. Ainda tenho muito o que fazer na cozinha.
- Eu ajudo você – prometeu a menina
- Nada disso, senhora Poliana! Não é preciso
Seguiram em silencio. O céu escurecido cada vez mais depressa. Poliana segurou no braço da amiga:
- Sabe, Nancy? Estou contente porque você se preocupou comigo e veio me buscar
- Coitada! Deve estar com fome. E vai ter comer na cozinha. Pão e leite, sabe? Sua tia ficou zangada porque você não apareceu para o jantar.
- E como podia, se estava ali?
- Só que ela não sabia – respondeu Nancy, com vontade de rir. – Detesto pão com leite. E você?
- Adoro.
- É mesmo? E por quê?
- Porque sim – respondeu Poliana. – E vamos comer juntas, nós duas, está bem?
- Você é um bocado estranha, lembrando-se do que acontecera no quartinho do sótão.
- Faz parte do jogo, entende? – e a menina sorriu.
- Que jogo
- O “jogo do contente”, não conhece?
- Quem meteu isso na sua cabeça, meu bem?
- Foi meu pai. É um jogo lindo. Desde que eu era criança brincava disso. Depois ensinei as senhoras a “Auxiliadora” e elas também gostaram.
- Como é que se joga? – quis saber Nancy. – Não entendo muito de jogos.
Poliana sorriu e depois de um suspiro, disse:
- Tudo começou por causa de uma muletas que vieram na caixa de donativos para o missionário.
- Muletas? – admirou-se Nancy
- Isso mesmo. Eu tinha pedido uma boneca a papai e , quando a caixa chegou, só havia um par de muletas para criança. Foi assim que começou.
- E onde é que está o jogo?
- Bem, o jogo se resume em encontrar alegria, seja lá no que for – conclui Poliana, séria. – Começamos com as muletinhas.
- E onde está a alegria? – estranhou Nancy. – Encontrar muletas em lugar de bonecas?
- É isso ai – e a menina bateu palmas de contente. – No começo também não entendi. Depois, com calma, papai me explicou tudo.
- Então, explique-me também
- Fiquei alegre justamente porque não precisava de muletas – esclareceu Poliana. – Viu como é fácil?
- Ora, isso é bobagem! – exclamou Nancy.
- Nada de bobagem. O jogo é lindo. Desde aquele dia, quando acontece alguma coisa ruim, mais engraçado fica o jogo. Difícil foi quando papai morreu e eu fiquei sozinha com as senhoras da “Auxiliadora”...
- E quando viu aquele quartinho feio, sem tapetes, sem quadros, sem graça? Como foi? – perguntou Nancy.
- Foi duro. Eu me senti tão só! Naquela hora não tive vontade de “jogar”. Só me lembrava do que eu tanto havia desejado. Depois, lembrei-me do espelho e das minhas sardas e fiquei alegre. E o “quadro” da janela me deixou mais contente ainda. Com um pouco de esforço, conseguimos gostar do que encontramos e esquecer o que queríamos achar...
- Hum! – resmungou Nancy.
- Às vezes não demora tanto – suspirou Poliana. – Começo logo o jogo, antes que alguma coisa aconteça. Nós jogamos sempre, eu e pa... pai. Vai ser difícil achar quem queira jogar comigo, aqui. Quem sabe a tia Paulina?...
- Nossa! – exclamou Nancy. – Olhe aqui, menina. Não entendi nada desse jogo, mas me ofereci para ser parceira, combinado?
- Obrigada, Nancy! Vai ser ótimo! Que bom...
- Não conte muito com isso – prosseguiu Nancy. – Mas apesar de não ser boa jogadora, vou fazer o possível.
- As duas ainda falavam disso quando entraram na cozinha. Poliana devorou o pão e bebeu o leite. Depois, a conselho de Nancy, foi procurar a tia na sala de estar. Paulina Harrington recebeu-a friamente.
- Poliana, lamento tê-la obrigado a comer na cozinha, logo no primeiro dia aqui em casa.
- Eu gostei, titia! Adoro pão com leite. Não se incomode, por favor.
- Está na hora se deitar – e a arrogante senhora levantou-se da cadeira. – Você teve um dia trabalhoso e amanhã vamos reorganizar sua vida, ver o que precisa. Nancy deve ter uma vela e tenha cuidado para não deixa-l acesa. O café da manhã é às sete e meia. Boa noite!
Sem conseguir conter-se, Poliana aproximou-se da tia e lhe deu um abraço, exclamando:
- Passei o dia todo muito contente! Sei que a senhora vai gostar de mim... Tenho quase certeza. Durma bem, tia Paulina. – e saiu alegre da sala, em direção ao sótão.
- Ora, vejam! – murmurou Paulina. – Essa menina é esquisita... Contente por ter sido castigada, contente por vir morar aqui, contente por tudo. É a primeira vez que vejo isso! – e voltou a mergulhar na leitura interrompida.
Quinze minutos mais tarde, já deitada, a menina soluçava sob os lençóis:
- Não posso, querido pai que está no céu, não posso jogar agora. A escuridão é horrível e o silencio assusta. Se ao menos tia Paulina estivesse comigo, ou Nancy , ou as senhoras da “Auxiliadora”...
Na cozinha, lavando e esfregando a leiteira, Nancy falava sozinha:
- Se é possível ficar contente quando se recebe um par de muletas em vez de bonecas, eu também posso aprender esse jogo maluco. Aquela menina...

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